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Os Riscos ocultos dos setores estáveis na bolsa

Ao longo do tempo, muitos investidores têm buscado segurança na renda variável concentrando
suas alocações em setores considerados “defensivos” da bolsa, como energia elétrica,
saneamento, saúde e alimentos. Empresas dessas áreas, por atuarem em segmentos essenciais
da economia e apresentarem receitas previsíveis, costumam ser vistas como portos seguros,
especialmente em momentos de instabilidade econômica ou elevada aversão ao risco. No
entanto, mesmo nesses setores tidos como resilientes, os riscos estão longe de ser nulos.
A falsa sensação de estabilidade pode levar o investidor a subestimar fatores relevantes como
riscos regulatórios, mudanças políticas, intervenções tarifárias, processos judiciais, pressões
ambientais ou até transformações tecnológicas que afetam modelos de negócios tradicionais.
Um exemplo claro disso pode ser observado em companhias de saneamento e energia, que
embora operem sob concessões de longo prazo, estão altamente expostas ao humor político, à
revisão de contratos e ao impacto de decisões governamentais.

E é por isso que hoje gostaria de trazer um pouco sobre a abordagem dos riscos do setor de
energia elétrica, especialmente quando analisamos o contexto brasileiro. Historicamente, esse
setor atrai uma parcela significativa dos investidores pessoa física, que enxergam nas empresas
de geração, transmissão e distribuição de energia uma fonte confiável de dividendos e resiliência
econômica. No entanto, o próprio histórico do setor no Brasil revela episódios marcantes de
risco regulatório, revisões tarifárias, racionamento e interferência estatal — fatores que, mesmo
em negócios com receita previsível, podem impactar diretamente a rentabilidade e o preço das
ações. Por isso, compreender a dinâmica regulatória e os eventos passados é fundamental para
uma análise completa, que vá além dos indicadores de estabilidade aparente e leve em conta os
riscos específicos aos quais essas companhias estão expostas.

O setor elétrico brasileiro, tradicionalmente associado à previsibilidade e à consistência de
resultados, já foi impactado de forma significativa por decisões governamentais. Um marco
simbólico dessa realidade foi a promulgação da Medida Provisória 579, em setembro de 2012,
durante o governo Dilma Rousseff. A MP propunha uma redução tarifária de cerca de 20% para
os consumidores finais, uma medida popular à primeira vista, mas que resultou em severos
impactos negativos para a estrutura financeira das companhias do setor. Usinas hidrelétricas
com investimentos já amortizados passaram a ter sua remuneração limitada ao custo
operacional, sendo impedidas de precificar a energia produzida de acordo com as condições de
mercado. Essa restrição minou a rentabilidade de diversas empresas, penalizando
principalmente aquelas com ativos antigos, como a Eletrobras e a CEMIG, que viram o valor de
suas ações despencar em até 80% em questão de meses.


Além disso, o governo promoveu uma antecipação das concessões de geração, transmissão e
distribuição, impondo às empresas novas regras de remuneração e operação que
comprometiam a sustentabilidade de seus negócios. O argumento central era viabilizar tarifas
mais baixas para o consumidor, mas o custo real foi assumido pelas companhias e,
indiretamente, pelos próprios investidores. A proposta previa uma compensação financeira do
Estado para as empresas que aceitassem as novas condições, mas os valores ofertados não
cobriam os prejuízos de longo prazo, gerando litígios judiciais e incertezas regulatórias que
persistem até hoje.


Esse movimento foi amplamente interpretado como uma sinalização negativa ao mercado: o
Estado estava disposto a interferir de forma drástica em setores estratégicos da economia,
mesmo à custa da previsibilidade e da segurança jurídica que sustentam o ambiente de
investimentos. O episódio colocou em xeque o compromisso do governo com a estabilidade
regulatória e ampliou a percepção de risco no setor elétrico. Investidores institucionais, que
antes viam o setor como um porto seguro, passaram a reavaliar sua exposição diante da nova
realidade. A crise hídrica que se seguiu, somada à alta do custo de operação com o uso das
termelétricas, acentuou ainda mais os prejuízos, e as tarifas — que inicialmente haviam caído
— logo retornaram aos níveis anteriores, desta vez acompanhadas de desconfiança
generalizada.
O setor elétrico brasileiro, portanto, passou a ser encarado com maior cautela. A lição deixada
pelo episódio de 2012 é clara: nenhum setor está blindado contra riscos regulatórios, e a
previsibilidade financeira pode ser rapidamente comprometida quando há instabilidade
institucional. O investidor, por mais experiente que seja, não pode negligenciar esse tipo de risco
ao montar sua carteira. Ainda que a estrutura operacional das companhias seja sólida e os
resultados recorrentes, fatores externos, como decisões políticas e intervenções abruptas,
podem alterar radicalmente o cenário.


Nesse sentido, é sensato considerar o histórico recente do setor de energia no Brasil ao compor
uma carteira de investimentos. O episódio da MP 579 é um lembrete de que mesmo empresas
bem posicionadas, com histórico de solidez e distribuição constante de dividendos, estão
sujeitas às marés políticas e à volatilidade do ambiente regulatório. É importante reconhecer
que, embora o setor elétrico continue sendo uma escolha válida para investidores de longo
prazo, ele não está isento de riscos. Companhias estatais, por sua vez, tendem a ser ainda mais
suscetíveis às pressões políticas, enquanto empresas privadas — embora mais resilientes — não
estão completamente blindadas, pois fazem parte da mesma cadeia regulatória.

Não se trata, portanto, de evitar o setor, mas de compreendê-lo com profundidade. O investidor
atento deve realizar uma análise criteriosa que vá além dos números e dos múltiplos. É
necessário avaliar a governança das empresas, o grau de dependência de receitas reguladas, a
exposição a ativos depreciados, a maturidade das concessões, o relacionamento com órgãos
públicos e, sobretudo, a capacidade da companhia de resistir a cenários adversos como o de 2012.

Essa avaliação precisa ser feita com objetividade e sem ilusões. O passado recente
mostrou que a previsibilidade é uma qualidade valiosa, mas frágil quando submetida ao teste
do populismo econômico.

Apesar dos efeitos nocivos das medidas intervencionistas, algumas empresas conseguiram
preservar seus fundamentos e, inclusive, ganharam a confiança do mercado por sua capacidade
de gestão. Companhias como Engie, Taesa e Equatorial foram menos impactadas pela MP 579 e
conseguiram manter uma trajetória de crescimento e valorização ao longo dos anos. Isso
demonstra que há espaço para selecionar boas oportunidades mesmo em meio a um setor com
histórico conturbado. O desafio está em separar o joio do trigo e identificar quais empresas
possuem modelos de negócios mais resilientes, menor exposição a ativos vulneráveis e uma
governança capaz de responder com agilidade às mudanças do cenário.

A leitura correta do setor elétrico brasileiro requer, portanto, um olhar que combine
fundamentos técnicos, análise histórica e sensibilidade política. Não se pode ignorar que o país
ainda convive com altos níveis de judicialização, burocracia e instabilidade normativa. Mesmo
com a aprovação de reformas e avanços regulatórios nos últimos anos, o investidor deve manter
uma postura vigilante. A valorização da segurança jurídica, da previsibilidade contratual e da
independência dos órgãos reguladores precisa ser um tema recorrente no radar do mercado.
O caso da MP 579 se tornou um estudo de caso emblemático sobre os riscos da intervenção
estatal mal calibrada. Estima-se que os prejuízos acumulados para o setor superaram os R$ 200
bilhões ao longo da década, valor que inclui não apenas as perdas das companhias listadas, mas
também os custos adicionais arcados pela União e pelos consumidores. Boa parte desse prejuízo
foi financiado por meio de endividamento público e tarifas elevadas nos anos seguintes. A conta,
como sempre, chegou para todos — investidores, empresas e população.

Conclui-se, portanto, que a noção de segurança absoluta em qualquer setor da economia deve
ser vista com ceticismo. O setor elétrico brasileiro, com toda sua importância estratégica e
previsibilidade operacional, não está imune às decisões políticas que comprometem sua
sustentabilidade. O investidor maduro entende que não existe retorno sem risco — e que até
mesmo ativos considerados defensivos devem ser acompanhados com atenção, análise
criteriosa e visão de longo prazo. O episódio de 2012 foi uma virada de chave para o
entendimento da importância da segurança regulatória e da confiança institucional no ambiente
de negócios do Brasil.

Texto escrito por Lucas Maia Cardoso, Analista CNPI.

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