Lucas Sardeti
Em um domingo carregado de expectativa, saí para votar pensando no que estava em jogo. Não apenas em nomes ou partidos, mas nas decisões que fazem uma empresa contratar, investir e atravessar os anos. Nas conversas, ouvi empresários que, como eu, enxergavam a possibilidade de mudança na condução econômica do país. Havia esperança, talvez confiança demais em pesquisas e mercados de previsão. Mas eleição não é mercado, tampouco promessa de resultado.
Às cinco da tarde, quando muitos esperavam começar a conhecer o resultado, veio a notícia da prorrogação da votação em parte das seções e da suspensão da divulgação da apuração. Naquele intervalo, segui para a igreja. Foi um momento de paz, de comunhão, um contraponto à ansiedade. Quando voltei para casa e acompanhei a contagem, a expectativa deu lugar à frustração. Lula estava reeleito. E com o resultado veio uma pergunta que não me saiu da cabeça: e agora?
Nos últimos meses, acompanhei um sentimento crescente de expectativa entre empresários. Muitos enxergavam na possibilidade de alternância de poder uma oportunidade para rever a condução econômica do país, especialmente em relação aos gastos públicos, à tributação e à liberdade para empreender.

Não era uma expectativa sem fundamento. Flávio Bolsonaro havia terminado o primeiro turno à frente de Lula, as últimas pesquisas indicavam uma disputa extremamente apertada e plataformas de previsão, como o Polymarket, chegaram a apontar uma probabilidade expressiva de vitória da oposição.
Mas as urnas deram outro resultado. Lula foi reeleito para mais quatro anos.
E é justamente aqui que começa a reflexão que gostaria de compartilhar.
Nas conversas que tive com outros empresários, encontrei um sentimento que vai além da simples insatisfação política. Existe um receio concreto sobre o ambiente econômico dos próximos anos, sobre a capacidade de continuar investindo, contratando e construindo negócios em um país que já exige tanto de quem produz.
A reforma tributária, por exemplo, representa uma transformação profunda na maneira como as empresas administram seus impostos. Embora tenha sido apresentada com a promessa de simplificar o sistema, sua implementação traz dúvidas, custos de adaptação e preocupações com o fluxo de caixa.
O chamado split payment, mecanismo que permitirá o recolhimento de tributos no momento da liquidação financeira das operações, é um dos pontos que merecem especial atenção. Dependendo da atividade e da estrutura financeira da empresa, a mudança poderá exigir uma reorganização importante do capital de giro.
A preocupação não se limita aos impostos.
O crescimento da dívida pública, a dificuldade de controlar despesas e a necessidade de financiar novas promessas de governo levantam uma questão que considero fundamental: até quando o Brasil conseguirá sustentar suas escolhas fiscais sem ampliar o custo para quem trabalha, investe e produz?
Há também a perspectiva de novas indicações ao Supremo Tribunal Federal, uma questão institucional que desperta inquietações em parte do empresariado.
É claro que o país não é formado por empresários com uma única visão política. Há quem tenha comemorado o resultado e enxergue na continuidade do governo oportunidades para a economia. Mas essa não foi a percepção predominante nas conversas que tive ao longo do domingo.
E não quero transformar esta coluna em uma discussão sobre quem votou certo ou errado.
A eleição terminou. O resultado precisa ser respeitado. E o Brasil continuará sendo nosso país, independentemente de quem ocupe a Presidência.
O que não podemos fazer é continuar esperando que Brasília resolva aquilo que já deveríamos estar resolvendo dentro das nossas empresas e famílias.
Talvez essa seja a grande mudança de mentalidade que o resultado de domingo pode provocar.
Quantos empresários passaram anos adiando um planejamento sucessório? Quantos ainda não organizaram suas estruturas societárias, não conhecem adequadamente seus riscos tributários ou mantêm praticamente todo o patrimônio concentrado no mesmo país, na mesma moeda e sob as mesmas condições econômicas?
Quantos já pensaram em expandir seus negócios para outros mercados, buscar receitas internacionais, diversificar seus investimentos ou proteger melhor aquilo que construíram, mas nunca saíram do campo das ideias?
Não estou defendendo abandonar o Brasil. Muito pelo contrário. Continuo acreditando no potencial deste país e na capacidade de quem empreende aqui.
Mas acreditar no Brasil não significa depender exclusivamente dele.
Internacionalizar parte dos investimentos, avaliar oportunidades empresariais no exterior ou reorganizar o patrimônio familiar são possibilidades que merecem ser estudadas com critério. Não por desespero, nem como reação impulsiva a uma eleição, mas como parte de uma estratégia de longo prazo.
E decisões dessa natureza não podem ser tomadas de qualquer maneira. Exigem conhecimento jurídico, tributário, contábil, financeiro e empresarial. Exigem profissionais qualificados, planejamento e, principalmente, disposição para olhar de frente para os problemas que muitas vezes preferimos adiar.
Existe uma diferença enorme entre agir por medo e agir por responsabilidade.
O medo pode fazer alguém tomar uma decisão precipitada. A responsabilidade faz essa mesma pessoa se preparar para diferentes cenários.
Talvez seja esse o maior aprendizado deste momento.
Durante meses, muitos empresários depositaram suas expectativas em uma mudança de governo. Agora, diante de um resultado diferente daquele que esperavam, precisam reconhecer que nenhuma eleição deveria ser a única esperança para a sobrevivência ou o crescimento de uma empresa.
Não podemos controlar as decisões do governo, os rumos do Congresso ou as próximas mudanças tributárias. Mas podemos controlar como organizamos nossos negócios, protegemos nossas famílias, administramos nossos riscos e planejamos o futuro.
Naquele domingo, entre a expectativa da votação, a tranquilidade que encontrei na igreja e a frustração da apuração, terminei o dia com uma convicção ainda maior.
O Brasil continuará enfrentando seus desafios. Alguns antigos, outros novos. E nós continuaremos tendo a responsabilidade de enfrentá-los.
Por isso, talvez a pergunta mais importante depois desta eleição não seja o que Lula fará nos próximos quatro anos.
A pergunta é: o que você fará, a partir de agora, para que o futuro da sua empresa e da sua família não dependa exclusivamente das decisões de Brasília?
As urnas já decidiram.
Agora é a nossa vez de tomar decisões.