Colunista Kim Rafael Política

Bolsonaro, a Inflamação Retórica e o Abandono de Seus Aliados

Os recentes desdobramentos sobre conspirações de golpe envolvendo militares e agentes públicos escancaram um problema persistente que transcende as operações...

PODER360 7.set.2021 (terça-feira) – 19h04

Os recentes desdobramentos sobre conspirações de golpe envolvendo militares e agentes públicos escancaram um problema persistente que transcende as operações da Polícia Federal e chega até a figura de Jair Bolsonaro. Durante seu mandato, Bolsonaro promoveu um discurso que frequentemente flertou com a ruptura democrática, insuflando seguidores contra instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional. Essa retórica, muitas vezes embalada por ameaças veladas ao “sistema”, plantou sementes perigosas que germinaram em episódios como o ataque aos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 e as tentativas de golpe agora desarticuladas. Confesso no meu pequeno diário, que também fui vítima da inflamação – lembro-me do dia 07 de setembro de 2021 na avenida Paulista. o discurso inflamado ecoou: “qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá.”

E o que aconteceu depois? Uma carta redigida pelo ex-presidente Temer: “Em que pesem suas qualidades como jurista e professor, existem naturais divergências em algumas decisões do Ministro Alexandre de Moraes.

Enquanto suas palavras incitaram a ação de muitos, Bolsonaro recuava na prática, evitando confrontos diretos e mantendo-se distante das consequências. É o caso emblemático de figuras como o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, preso por envolvimento em esquemas de falsificação de cartões de vacinação e suspeito de participar de conspirações antidemocráticas. Mauro Cid, assim como outros aliados inflamados pelo discurso do ex-presidente, foi abandonado à própria sorte, sem qualquer apoio ou defesa pública consistente por parte de Bolsonaro.

Essa postura não é apenas uma falha moral, mas também estratégica, evidenciando o modus operandi de Bolsonaro: inflamar, observar e, diante do desgaste, recuar e se omitir. Vide: https://www.conjur.com.br/2021-set-09/bolsonaro-recua-agora-chama-alexandre-jurista-professor/

Também aconteceu com Felipe Martins, ex-assessor especial de Jair Bolsonaro, sobre sua prisão ordenada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Vide: https://www.metropoles.com/colunas/igor-gadelha/filipe-martins-ira-a-camara-falar-de-prisao-e-de-moraes.

O Circo Que Bolsonaro Deixa Pegar Fogo

Durante a crise que culminou nos ataques de 8 de janeiro, Jair Bolsonaro, já fora do Brasil, optou por um silêncio ensurdecedor. Ele não apenas deixou de condenar os atos de violência de forma profunda, mas também demonstrou que sua retórica inflamada, que tantas vezes insuflou seus seguidores, carecia de qualquer plano ou estratégia concreta. Enquanto Brasília se tornava palco de destruição e afronta à democracia, Bolsonaro, confortável em sua distância geográfica e política, assistia aos acontecimentos sem assumir a mínima responsabilidade pelos atos que ele próprio incentivara.

Esse padrão de omissão torna-se ainda mais evidente ao observarmos os casos de militares e aliados presos por envolvimento em conspirações golpistas. Muitos desses agentes, motivados pelos discursos contra um “sistema corrupto” que o ex-presidente tanto denunciava, acreditaram estar agindo em defesa de uma causa maior, será? Ao enfrentarem as consequências legais e institucionais de seus atos, foram deixados à própria sorte, desamparados e sem qualquer tipo de apoio público ou privado de Bolsonaro ou de seus aliados próximos.

Chega a parecer que há um padrão, ou até mesmo um acordo implícito. Não soa assim?

Eu já defendi o governo Bolsonaro, mas, como dizia Ruy Barbosa, “mudo de opinião porque sou capaz de raciocinar”. A nomeação de ministros técnicos e uma equipe comprometida com a gestão eficiente parecia um caminho promissor. Contudo, esse ideal começou a ruir com o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro. Diante das denúncias de corrupção, o presidente, em vez de agir com a transparência que prometera, perdeu a oportunidade de demonstrar que estava disposto a enfrentar o sistema, mesmo que isso significasse condenar o próprio filho. Ao contrário, optou por alianças com o Centrão, loteando cargos e comprometendo o discurso de renovação política que havia conquistado milhões de eleitores.

Bolsonaro não só atiçou sua tropa com discursos inflamados, mas na hora do “vamos ver” deixou todo mundo na chuva, segurando o rojão. Um verdadeiro maestro da arte de inflamar e depois dar um passo para trás, cuidando mais da própria pele do que das bandeiras que dizia defender. É de cortar o coração, especialmente para quem acreditou. Sara Winter, Daniel Silveira, Roberto Jefferson, Mauro Cid, Filipe Martins, Cleriston Pereira da Cunha e os mais de 2.400 nomes… o que une essa turma? O abandono, claro! E a desculpa? “Ninguém mandou!” Ninguém mandou quebrar tudo, ninguém mandou gritar ‘mito’ a plenos pulmões, ninguém mandou falsificar cartão de vacina. Será? Nem vamos falar sobre os acampamentos frente aos quartéis por todo o país.

O Peso da Retórica e a Consequência do Abandono

É inegável que Bolsonaro, durante seus quatro anos de mandato, foi um dos grandes arquitetos da direita no Brasil. Seu papel foi essencial para redefinir o debate político e, claro, para nos ensinar que a história é, sim, uma eterna repetição de erros. Ele teve em mãos uma chance única de fazer a diferença, mas preferiu desconfiar das instituições brasileiras – ou fingir que desconfiava, o que dá no mesmo. Com discursos temperados com pitadas de falta de noção, ataques ao sistema eleitoral – um debate que não precisava ter mergulhado, e flertes descarados com militares e policiais, ele abriu as portas para a radicalização. E quando o cenário começou a pesar, o que ele fez? Simples: salvou a própria pele, abandonando todos que ajudou a incendiar.

Esse hábito de largar aliados pelo caminho é mais do que uma tática; é quase uma assinatura. Desde o início de sua trajetória política, Bolsonaro tem demonstrado uma habilidade incomum para fugir de responsabilidades. Ao inflamar uma base radical sem oferecer suporte real – seja prático ou legal – ele não só deixou seus seguidores à própria sorte, mas também colocou em xeque a já frágil estabilidade democrática do Brasil. Um verdadeiro visionário… da autossabotagem.

A Necessidade de Lições para o Futuro

Os episódios recentes devem servir como um alerta para o país. A liberdade de expressão, garantida pela Constituição, não deve ser usada como escudo para a incitação à violência ou à ruptura institucional. Como advogado, não posso concordar a combater o mal com o mal. A sociedade brasileira precisa estar atenta a líderes que inflamam paixões sem assumir as consequências de seus atos.

Os responsáveis por conspirações antidemocráticas devem, sem dúvida, enfrentar as consequências de seus atos. Mas é igualmente crucial investigar o papel de Jair Bolsonaro como possível mentor dessas ações. Não se trata apenas de punir culpados, mas de entender a dinâmica que levou a esse período turbulento para que a democracia brasileira saia mais forte e madura. E, claro, aprender lições significa também olhar criticamente para o papel de figuras-chave como o ministro Alexandre de Moraes. Afinal, numa democracia saudável, não é possível que alguém seja, ao mesmo tempo, vítima, acusador e juiz. Equilíbrio de poderes, afinal, não é só um conceito bonito — é uma necessidade.

O Brasil não pode mais aceitar líderes, ministros, congressistas que jogam gasolina no circo para depois se esconderem. Se queremos construir um futuro estável e democrático, precisamos combater tanto os executores quanto os ideólogos dessas ações, garantindo que a história não se repita.

E antes que você diga alguma coisa sobre minha opinião, a qual está em constante mudança: “não me envergonho de mudar de opinião, porque não me envergonho de pensar” já dizia Blaise Pasca.

Sapere audeTenha coragem de fazer uso de seu próprio entendimento.” (Kant)



Outras notícias

Política

Governo disponibilizará R$ 56 milhões para vítimas de ciclone no Sul

O presidente da República em exercício Geraldo Alckmin reuniu, neste sábado (9), no Palácio do Planalto, ministros e demais integrantes...
Política

CPIs agitam Congresso com depoimento de diretores da CBF e sócios da 123Milhas

Após a pausa do feriado de 7 de Setembro, as articulações políticas e econômicas devem voltar com força na semana...