Quando eu era criança (o que não faz tanto tempo assim), costumava andar pela casa com o rádio debaixo do braço, caçando espaços para fazer de palco e bonecos para fazer de público. As músicas? Todas baixadas de sites duvidosos e gravadas em CDs, uma proeza que aprendi aos meus 10 anos e nos rendeu álbuns e álbuns. A variedade das músicas era espetacular! Na faixa 1, Rita Lee. Já na 2, Mamonas Assassinas. Porém na 3, facilmente encontraríamos algo como Queen ou The Beatles. E por aí vai. Mas não posso negar que, intercalado com esse gosto musical mais “adulto”, ouvia e dançava até minha pré adolescência todos os DVDs da Xuxa, com minha irmãzinha, e achava o máximo. As músicas com temas adultos sempre existiram e sempre foram consumidas pelas crianças, isso é fato, mas também é fato isso ocorria num contexto familiar e sem maldade, na maioria das vezes. Não havia método.
Hoje, uma criança de 10 anos em qualquer casamento ou festa, dá um show. Sabe todas as músicas e coreografias… mas quais músicas, afinal? Temos desde os funks mais pesados que você possa imaginar, até as músicas virais no TikTok e Instagram que podem até não ser explícitas, mas aparentemente fazem o cérebro escorrer pela orelha de tão ruins. Essa trilha sonora rende danças que simulam de forma até óbvia, movimentos sexuais e pornográficos, criando cenas grotescas e inapropriadas. E não estou sendo moralista ou bancando a carola, veja bem. O tema é mais profundo e doentio do que aparenta, acredite.
A adultização de crianças se tornou tema de debate, essa semana, e levantou diversas personalidades públicas a se manifestarem, após a denúncia do Felca. Não é um tema novo, infelizmente, e nem uma queixa inédita.
E é claro que na sequência de uma denúncia de tamanha repercussão, como a do Felca, vem gente de todo canto surfar a onda e colocar seus próprios interesses em pauta. E esta afirmação pode ser interpretada para o bem e para o mal, igualmente.
Não é de hoje que a ala mais conservadora aborda este tema na esfera pública, sendo a denúncia dos crimes ocorridos na Ilha do Marajó um grande exemplo. Ou até mesmo o filme The Sound of Freedom, que trata do tráfico de crianças voltado à exploração sexual. E será coincidência que, em ambos os casos, a esquerda tentou abafar as denúncias ou ridicularizar os denunciantes?
Esta mesma esquerda viu, no vídeo do Felca, não um tema a ser debatido, esmiuçado e combatido. Não viu adultos criminosos, que se aproveitam de crianças para lucrar, alimentando e dando brecha para a indústria pornográfica utilizar a imagem dessas crianças como produto. A esquerda viu oportunidade.
Alegando proteção das crianças, o governo atual viu, no tema da adultização, a justificativa ideal para aplicar a tão sonhada regulação das redes sociais.
De novo e mais uma vez, a turma deixa transparecer sua adoração a regimes totalitários, enfiando censura goela abaixo no povo. Chega a ser cômico, além de trágico.
Do outro lado, alguns daqueles que se autointitulam “didireita” não reconhecem o mérito e o alcance incrível que teve o dossiê elaborado pelo influencer. Alegam ser ele um peão da esquerda para implantar suas políticas, fechando os olhos para o que realmente importa aqui: a proteção às crianças. Se fosse qualquer personalidade do espectro político contrário, realizando tal denúncia, e fosse esta efetiva e rendesse frutos, deveria-se aplaudir, da mesma forma. Quando se trata de um tema tão importante e delicado, não há espaço para ego. Diminuir o feito de Felca só porque outras personalidades da direita já relataram fatos parecidos ou idênticos, anteriormente, não contribui em absolutamente nada com o tema em questão. Atacar o mensageiro, sem focar na mensagem, é um sofisma dos mais baixos e fracos.
Triste que as denúncias anteriores sobre o mesmo tema não funcionaram ou não tiveram o mesmo alcance? Sim. Isso faz do Felca culpado pelo mau caratismo e oportunismo dos apoiadores da censura? Não.
Crianças estão sendo expostas a uma cultura de sexualização e promiscuidade hedionda, e devemos nos lembrar daqueles que, além de não fazerem nada para combater este mal (e pior, contribuem com sua propagação), ainda se aproveitam da pauta para implantar medidas igualmente odiosas ao povo.