Colunista Lucas Sardeti

O que os relógios não conseguem medir

O que torna uma vida valiosa não é a quantidade de tempo que temos, mas o que construímos com ele.

Lucas Sardeti

Em uma daquelas tardes chuvosas de Maringá, eu e meu sócio Maia tivemos a oportunidade de conhecer um lugar que nos chamou bastante a atenção: a Palazzo Lab, um laboratório especializado em relojoaria suíça, comandado por Ronan e seu sócio, Lucas.

O convite partiu do próprio Ronan. Subimos até o décimo andar do edifício Le Monde e, logo na entrada, algo me chamou a atenção. De um lado, um ambiente agradável para receber os clientes, conversar e tomar um café. Do outro, separado por uma parede de vidro, o laboratório, onde os profissionais trabalham cuidadosamente nos mecanismos de relógios que, muitas vezes, valem pequenas fortunas.

Confesso que minha atenção foi imediatamente atraída por um Rolex Land-Dweller, de mostrador branco, que Ronan estava examinando. Uma peça extraordinária. Daquelas que despertam curiosidade até em quem não entende muito de relojoaria.

Mas, depois de aproximadamente quarenta minutos de conversa, percebi que a história mais interessante daquele lugar não estava em nenhum dos relógios.

Estava no homem que cuidava deles.

Ronan começou a se interessar pela relojoaria ainda criança. Um vizinho que trabalhava com relógios despertou sua curiosidade e abriu as portas para que ele conhecesse a profissão. Aquilo que começou com a curiosidade de um menino acabou se tornando o trabalho de uma vida inteira.

Anos mais tarde, sua trajetória o levou à Europa. Passou pela Itália, viveu na Inglaterra, trabalhou em uma joalheria e teve contato com grandes marcas internacionais. Ao longo desse caminho, acumulou experiências, conhecimentos e oportunidades que contribuíram para sua formação profissional.

Mas algo que me chamou bastante a atenção foi descobrir que, mesmo depois de tantos anos trabalhando com relógios, Ronan continua estudando. Ele nos contou que procura viajar regularmente para realizar cursos, participar de treinamentos e aprofundar seus conhecimentos.

Pensei comigo: quantas pessoas, depois de décadas exercendo a mesma profissão, ainda conservam essa vontade de aprender?

Durante a visita, conhecemos peças belíssimas e ouvimos histórias curiosas. Uma delas envolvia um relógio Richard Mille, avaliado em aproximadamente R$ 1,9 milhão, que teria sido utilizado como parte de uma negociação para aquisição de uma empresa.

É curioso pensar nisso. Hoje, praticamente qualquer pessoa consegue consultar as horas olhando para a tela do celular. Ainda assim, existem relógios que custam mais do que muitas casas.

Afinal, o que faz um objeto criado para marcar as horas alcançar valores tão extraordinários?

Parte da resposta está na engenharia, na tradição, na exclusividade e no trabalho envolvido em sua fabricação. São peças que carregam histórias, conhecimentos e técnicas desenvolvidas ao longo de gerações.

Mas, enquanto Ronan nos mostrava aqueles mecanismos, fiquei pensando que talvez existisse algo ainda mais valioso naquela sala.

O conhecimento necessário para cuidar deles.

Nenhum daqueles relógios havia chegado às suas mãos por acaso. E tampouco o conhecimento que Ronan acumulou ao longo da vida. Foram anos dedicados a aprender, trabalhar, aperfeiçoar técnicas e construir uma reputação.

Existe algo muito bonito em pessoas que encontram uma profissão e decidem exercê-la com excelência. Não apenas porque são remuneradas por aquilo que fazem, mas porque demonstram respeito pelo próprio ofício.

A conversa também teve um significado pessoal. Meu pai já havia me falado sobre Ronan algumas vezes, e foi muito agradável finalmente conhecê-lo. Descobrimos ainda que compartilhamos a mesma fé, o que tornou aquele encontro ainda mais próximo.

Saí de lá contente pela recepção, pela conversa e pela oportunidade de conhecer um universo tão diferente do meu.

Mas, sobretudo, saí pensando em uma curiosa contradição.

Existem relógios capazes de alcançar valores milionários. São objetos impressionantes, produzidos com enorme precisão e que podem atravessar gerações. Porém, nenhum deles é capaz de devolver uma única hora que já passou.

Ronan dedicou boa parte da vida a compreender os mecanismos que medem o tempo. E sua trajetória me fez refletir sobre aquilo que fazemos com o nosso.

Porque o menino que um dia se interessou pelos relógios de um vizinho não se tornou um profissional experiente de uma hora para outra. Foi o tempo, acompanhado de dedicação, curiosidade e aprendizado, que construiu sua história.

Talvez o verdadeiro luxo não esteja apenas em possuir um relógio extraordinário, mas em olhar para a própria trajetória e perceber que o tempo foi bem empregado.

Afinal, os relógios podem nos dizer que horas são. Mas somente nossas escolhas podem dar sentido às horas que vivemos.